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Direita democrática foi engolida, e esquerda precisa se reinventar após 1º turno

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O primeiro turno das eleições brasileiras de 2026 deixou um recado que vai muito além da disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro: a extrema direita avança (e o PL vai em direção à hegemonia de seu campo), a esquerda resiste eleitoralmente, mas permanece estruturalmente fragilizada, e o centro e a direita autoproclamada moderada sofreram uma derrota devastadora.

Os números do Congresso são particularmente reveladores. O PL saltou de 98 para 121 deputados, o Novo de 5 para 10, enquanto a federação PT–PCdoB–PV passou de 82 para 88 cadeiras. O PT, isoladamente, cresceu de 65 para 70 deputados. A federação PSOL–Rede aumentou de 13 para 14 cadeiras, embora pudesse ter conquistado mais. Já a federação União–PP caiu de 105 para 87 parlamentares, o MDB de 41 para 36, a federação PSDB–Cidadania de 18 para 11, o PSD de 48 para 43, e o PDT de 16 para apenas 6.

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A conclusão é desconfortável para quem insiste em interpretar a política brasileira exclusivamente como uma disputa entre petismo e bolsonarismo: a esquerda não desapareceu eleitoralmente. Quem sofreu algumas das derrotas mais expressivas foi justamente o campo que pretendia apresentar-se como alternativa à polarização.

Parte da direita tradicional apostou durante anos em uma espécie de bolsonarismo light: suficientemente conservador para disputar o eleitorado radicalizado, mas aparentemente moderado o bastante para preservar sua respeitabilidade institucional. E o resultado foi ser engolida pelo original. Por que votar na imitação quando o eleitor pode escolher quem reivindica a autenticidade do discurso? Ou ainda, por que votar em um partido de direita que, quando necessário, compõe com o PT?

O PL está fazendo com a direita aquilo que o PT fez durante anos com a esquerda: construindo hegemonia, atraindo lideranças, absorvendo eleitorados e reduzindo o espaço dos concorrentes. Com uma diferença fundamental: enquanto o petismo enfrenta o desgaste de quase duas décadas no poder, o bolsonarismo consegue apresentar-se como antissistema, mesmo profundamente instalado nas instituições.

Do lado da esquerda, há anos venho argumentando que o lulismo estava chegando aos seus limites e que o Brasil pagaria um preço elevado pela incapacidade da esquerda de construir alternativas críveis ao PT e, especialmente, a Lula. A crise da esquerda brasileira era também uma crise do lulismo e o ponto máximo de inflexão foi junho de 2013: à medida que movimentos e lideranças foram criminalizados, cooptados ou neutralizados, o espaço abandonado não permaneceu vazio, foi ocupado pela direita e, progressivamente, pela extrema direita.

Mas é importante esclarecer: essa crítica não significa simplesmente responsabilizar o PT por todos os problemas da esquerda. Todo partido busca hegemonizar seu campo político e isso é perfeitamente compreensível. O erro não está necessariamente na ambição petista, mas nas consequências estratégicas dessa hegemonia e, sobretudo, na passividade de uma esquerda que aceitou ser absorvida e parou de criticar os erros do PT e de realizar trabalho de base.

Durante anos, partidos, movimentos e lideranças preferiram a proximidade com o poder ao trabalho paciente de construir alternativas independentes, trocaram autonomia por cargos, influência e acesso ao Estado. Muitos se acomodaram em discursos universitários e guerras culturais, distanciando-se de uma sociedade majoritariamente conservadora (e perdendo a capacidade de dialogar), enquanto a extrema direita aprendia a organizar-se nas igrejas, nas periferias e nas redes sociais – e a usar o discurso identitário a seu favor, mas posando de anti-identitários.

O problema de concentrar um campo político inteiro ao redor de um partido é que seu desgaste acaba contaminando todos os demais. O antipetismo tornou-se, por extensão, antiesquerdismo. Quando a rejeição ao PT cresceu, praticamente não havia (ou há) outra esquerda capaz de apresentar-se como alternativa convincente.

A ausência de contrapontos também empobreceu o próprio petismo que, sem lideranças capazes de dizer não, questionar estratégias e confrontar diagnósticos, tornou a figura de Lula quase intocável. Uma liderança cercada de reverência excessiva perde justamente aquilo de que mais necessita: contato com a realidade.

O resultado é paradoxal já que o PT consegue ampliar sua representação parlamentar, mas continua incapaz de produzir uma sucessão política à altura de sua principal liderança.

O PSOL, por sua vez, ilustra outra dimensão do problema. Erika Hilton recebeu quase 1,6 milhão de votos em São Paulo, mas a concentração eleitoral em algumas candidaturas, combinada com a incapacidade de outras atingirem os 10% mínimos do quociente eleitoral, custou oportunidades de representação. Popularidade individual não substitui organização partidária.

Há ainda um contexto internacional incontornável em que a extrema direita cresce em diferentes países, e o governo Trump exerceu pressões abertas sobre o Brasil e a própria Abin alertou para riscos de interferência norte-americana no processo eleitoral. Nada disso, entretanto, absolve a esquerda brasileira de suas escolhas.

E o perigo ultrapassa a Presidência, já que um Congresso dominado pela direita, especialmente com o fortalecimento bolsonarista no Senado, poderá redefinir o equilíbrio institucional, pressionar o Supremo Tribunal Federal e alterar profundamente as políticas trabalhista, ambiental e de direitos civis.

É tempo de repensar estratégias. A reconstrução necessária, portanto, é dupla. A esquerda precisa abandonar sua dependência de Lula, renovar lideranças, recuperar presença popular e compreender a linguagem política da internet para além de nichos. Precisa voltar a disputar trabalhadores, jovens e setores conservadores sem tratar toda divergência como traição ou toda crítica como colaboração com o inimigo.

A direita democrática, por sua vez, precisa decidir se existe para oferecer uma alternativa ao extremismo ou simplesmente para reproduzi-lo com melhores maneiras. Sua derrota demonstra que a segunda opção conduz à irrelevância, mas essa mesma direita dá sinais de que não aprende rápido e muitos já pularam no barco do bolsonarismo – mesmo antes se dizendo críticos.

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O Brasil não precisa apenas de uma esquerda renovada, mas também de uma direita que não esteja subordinada ao bolsonarismo, porque uma democracia em que cada campo político elimina suas próprias alternativas acaba prisioneira de duas hegemonias. E quando uma delas entra em crise, não encontra renovação: encontra o adversário esperando para ocupar todo o espaço.

A conta chegou. E não apenas para o PT.



Fonte: Jota

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