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JOTA Principal | Lula defende redução da maioridade penal para crimes hediondos; campanha do PL busca resposta nas ruas

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Se o debate do primeiro turno da disputa presidencial ficou marcado pelo protagonismo do caso Master e do Judiciário, a tônica do segundo turno até aqui tem sido a tentativa da campanha de Lula de pautar o noticiário com fatos políticos de peso.

Na entrevista à Globo na noite de ontem (15), o presidente e candidato à reeleição deu mais um passo nesse sentido, ao contrariar uma posição histórica do PT e defender a redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos, Fabio MuraKawa analisa na nota de abertura.

O posicionamento respalda a iniciativa do senador Camilo Santana, coordenador da campanha de Lula, que tentou incluir o tema na discussão da PEC da Segurança Pública — cuja votação ocorreria ontem (15), mas acabou postergada por decisão de Davi Alcolumbre.

O novo fôlego que a campanha petista ganhou no segundo turno passa também, de forma fundamental, pela mobilização nas ruas, como a manifestação na avenida Paulista, no último domingo (11).

Na campanha de Flávio Bolsonaro, o termômetro da Paulista será testado no próximo domingo (18) — quando o presidenciável do PL, com a ajuda fundamental do governador reeleito Tarcísio de Freitas, fará seu ato em frente ao Masp.

Paula Bonelli colaborou nesta edição.

Boa leitura e bom fim de semana.


O PONTO CENTRAL

1. Tranquilidade no início, irritação depois

Lula começou a entrevista aparentando tranquilidade e domínio dos assuntos — assumiu responsabilidade pelas dificuldades de seu governo e pelo resultado do primeiro turno.

Com o passar do tempo, porém, mostrou irritação, perdeu desenvoltura e se atrapalhou em respostas sobre temas importantes — sobretudo na economia, Fabio MuraKawa analisa no JOTA PRO Poder.

  • Lula também perdeu a oportunidade de colher os louros da aprovação, na véspera, da PEC que acabou com a escala de trabalho 6×1.
  • Embora não tenha sido questionado sobre o tema, deixou de recorrer a uma das técnicas mais tradicionais da política: não se pautar de maneira literal pelas perguntas e conduzir as respostas para os temas que deseja destacar.
  • O presidente procurou demonstrar disposição para reconhecer falhas, rever posições e corrigir rumos.
  • Fez declarações importantes sobre segurança pública e a crise no Supremo, mas também expôs dificuldades para responder a questões concretas que afetam a vida da população, como o endividamento das famílias, o custo do crédito e a situação das contas públicas.
  • E se enrolou ao dizer que não sabia que o Bolsa Família, reajustado a poucos dias do primeiro turno, esteve congelado durante todo o seu mandato.

🔖 Leia os principais pontos:

Impopularidade do governo. Lula assumiu a culpa pelas dificuldades políticas e pela incapacidade de comunicar as realizações do governo.

  • Em diferentes momentos, voltou a dizer que herdou um país destruído e precisou reconstruí-lo.
  • Admitiu que não conseguiu convencer a população de que fez um bom governo, sem reconhecer na mesma medida possíveis erros nas próprias escolhas.

Redução da maioridade penal. Lula surpreendeu ao defender a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em crimes hediondos, contrariando uma posição histórica do PT.

  • Lula, porém, afirmou que os dois assuntos devem ser tratados separadamente, para não comprometer a aprovação da PEC da Segurança Pública.

Segurança pública. Lula prometeu maior participação do governo federal no combate ao crime organizado, com a criação do Ministério da Segurança Pública, financiamento de 138 presídios e ações para asfixiar financeiramente as facções, mas teve dificuldade para detalhar o que pretende fazer para melhorar a segurança cotidiana da população.

  • Sobre a pressão americana para classificar PCC e CV como organizações terroristas, voltou a rejeitar a equiparação entre as facções brasileiras e organizações terroristas internacionais.

Crise no Supremo. Ele reconheceu a gravidade do escândalo do Master e defendeu mudanças profundas no Judiciário.

  • Falou em discutir mandatos para ministros, critérios de indicação e restrições a conflitos de interesses, como a atuação de escritórios de advocacia ligados a integrantes do tribunal.
  • “Essa discussão é irreversível. É muito grave”, afirmou.
  • Ao mesmo tempo, passou a impressão de que tentava proteger Alexandre de Moraes da ofensiva bolsonarista, atribuindo parte dos pedidos de impeachment à reação contra a prisão de Jair Bolsonaro.
  • E colocou os desafetos Nunes Marques, André Mendonça e Dias Toffoli na conversa, afirmando que eles também estão envolvidos no escândalo do Master.
  • O presidente buscou marcar distância dos problemas do Supremo sem endossar integralmente os argumentos de seus adversários.

Polícia Federal e caso Master. Lula revelou ter advertido pessoalmente o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, pela viagem a Londres relacionada às controvérsias do caso Master.

  • Disse não ter considerado convincentes suas explicações, embora tenha elogiado o trabalho do delegado.
  • Também defendeu Ricardo Lewandowski, que atuou como consultor do Master antes de assumir o Ministério da Justiça, afirmando não caber ao presidente impedir que alguém trabalhe na iniciativa privada.
  • As respostas mostraram os limites do distanciamento que Lula procura estabelecer em relação aos personagens atingidos pelo escândalo.

Bolsa Família. Uma das explicações mais frágeis da entrevista ocorreu quando Lula foi questionado sobre o reajuste do Bolsa Família apenas 17 dias antes do primeiro turno.

  • Disse que considerava impensável um governo seu deixar de corrigir o benefício pela inflação, mas alegou desconhecer que o benefício não havia sido reajustado nenhuma vez em seu terceiro mandato.
  • A resposta parece muito pouco plausível e, no mínimo, suscita dúvidas sobre o controle presidencial de uma das principais políticas sociais do governo.
  • O reajuste, concedido em plena campanha eleitoral, também alimenta questionamentos sobre o momento escolhido para a medida.

Economia e dívida pública. Lula teve dificuldades para explicar como pretende lidar com a trajetória de crescimento da dívida pública e o nível elevado dos juros.

  • Rejeitou a ideia de que cortes de gastos sejam o caminho para reduzir as taxas e defendeu o crescimento econômico como instrumento de ajuste fiscal.
  • “Muito dinheiro na mão de poucos é pobreza, pouco dinheiro na mão de muitos é riqueza”, afirmou.
  • A resposta reafirma uma convicção antiga do presidente, mas não esclarece como pretende estabilizar a dívida sem medidas adicionais de controle das despesas ou aumento das receitas.
  • Mas foi bem ao dizer que no seu governo o ajuste não será feito em cima do pobre e ao lembrar que Flávio Bolsonaro não se compromete com aumento do salário mínimo acima da inflação.

Endividamento das famílias. Questionado sobre o número de brasileiros que precisam recorrer a empréstimos ou à poupança para fechar as contas, Lula citou o Desenrola 3 e medidas de perdão de dívidas para microempreendedores, mas não apresentou uma resposta mais ampla para o problema da renda insuficiente e do crédito caro.

Relação com os EUA. Lula evitou o confronto com Donald Trump.

  • Classificou a relação entre os dois governos como civilizada, mencionou negociações comerciais em andamento e afirmou acreditar na possibilidade de um acordo.
  • Também disse que não deseja recorrer à reciprocidade tarifária.
  • Foi uma resposta mais pragmática que confrontacional, mesmo diante do apoio político de Trump a Flávio Bolsonaro.

2. O termômetro da Paulista, pt. 1

Lula discursa em frente ao parque Trianon, na avenida Paulista, no último domingo (11/10) / Crédito: Izabel Penna/Modus Focus/Estadão Conteúdo

O segundo turno começou com um baque para os petistas, surpreendidos pela liderança de Flávio Bolsonaro e em busca de culpados, mas o atordoamento virou campanha — o que acendeu o alerta no entorno do presidenciável do PL, Marianna Holanda escreve no JOTA.

Por que importa: Ainda favorito nas pesquisas, o senador viu sua vantagem diminuir ao longo da semana.

  • Os apoios políticos, com a maior parte do Centrão em seu palanque, não se converteram numa margem folgada de votos.

🫁 O PT recuperou fôlego em três importantes atos:

  • O primeiro foi o contra-ataque nas redes sociais. O principal argumento petista, seja nas propagandas oficiais ou entre a militância, é o medo de cortes em programas sociais. Flávio chama as acusações de “fake news”, mas elas obrigaram o senador a dizer que concederia reajustes às aposentadorias acima da inflação, causando arrepios aos fiscalistas.
  • O segundo foram os atos de rua, em especial o da avenida Paulista. Conseguir levar gente para as ruas vinha sendo uma especialidade do bolsonarismo, mas a esquerda não apenas promoveu a manifestação como levou gente nova, especialmente estudantes, para discursar, ganhar protagonismo e falar em nome de Lula.
  • E o terceiro foi a enxurrada de “notícias positivas”, que só quem tem a caneta na mão é capaz de produzir. O Planalto anunciou um pacote de cinco medidas de olho nos microempreendedores, que vão desde um Desenrola para MEIs endividados até o Pix MEI, com transferências diretas para microempreendedores a partir do ano que vem.

⏩ Pela frente: Os efeitos de todas essas medidas ainda ninguém arrisca dizer — nem no PT, nem no PL.

  • Nenhum dos lados tem bala de prata, e a saída é disputar voto a voto.

🔖 Leia também:

  • Alcolumbre conta com 6×1 e traições até no PL para se reeleger; Motta anuncia ‘blocão’

3. O termômetro da Paulista, pt. 2

Tarcísio de Freitas e Flávio Bolsonaro em encontro com empresários na segunda-feira (13/10), em São Paulo / Crédito: Matheus P. Machado/Modus Focus/Estadão Conteúdo

Tarcísio de Freitas mergulhou na campanha de Flávio Bolsonaro, contrariando prognósticos, Beto Bombig escreve no JOTA PRO Poder.

  • Ontem (14), esteve com o presidenciável em Porto Alegre; nos próximos dias, eles cumprem agenda em Vitória e Salvador.
  • O ápice é esperado para domingo (18), no ato na avenida Paulista.

Por que importa: Com a presença do governador reeleito de São Paulo, do presidenciável e o auxílio do prefeito Ricardo Nunes (MDB), o evento medirá forças com a esquerda, que lotou o local em apoio a Lula no domingo (11).

  • A decisão de Tarcísio frustrou a campanha de Lula, que esperava que o governador apoiasse Flávio discretamente e saísse de cena.
  • Como o estado é decisivo, a campanha calcula que, se o candidato do PL abrir vantagem no estado, poderá compensar a diferença favorável de Lula no Nordeste.

🔮 O que observar: No segundo turno de 2018, Jair Bolsonaro teve quase 8 milhões de votos de diferença sobre Fernando Haddad em São Paulo.

  • Com Flávio tendo vencido o primeiro turno no estado por 12,9 milhões a 9,5 milhões de Lula, ele precisará dobrar essa vantagem — meta difícil, mas não impossível.
  • Por isso, a atuação direta de Tarcísio surge como a principal ajuda recebida por Flávio neste segundo turno.

4. Business as usual?

Flávio Bolsonaro, Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro em encontro com Donald Trump no Salão Oval / Crédito: Reprodução/X – 26.mai.2026

Uma eventual mudança de governo no Brasil exigirá cautela para preservar as boas relações comerciais com seus principais mercados, Vivian Oswald e Marianna Holanda escrevem no JOTA PRO Poder.

Por que importa: Escaldados pela experiência do governo Jair Bolsonaro, representantes do agro e da indústria querem evitar aventuras e bravatas na política externa que possam prejudicar os negócios.

  • Essa foi uma das condições impostas por representantes de ambos os setores para apoiar Flávio Bolsonaro.

O plano de governo de Flávio não deixa claro como será conduzida a relação com a China.

  • Aliados garantem que as decisões serão orientadas pelos interesses econômicos do país, mensagem que o candidato tem procurado reforçar junto ao empresariado.
  • Nesse contexto, Flávio já fez seu primeiro gesto em direção à China, alvo dos Estados Unidos na América Latina.
  • Segundo fontes próximas ao senador, ele se reuniu com o embaixador chinês no Brasil.
  • O encontro foi articulado por parlamentares ligados ao agro, que mantêm interlocução com Pequim e não querem colocar em risco a relação comercial entre os dois países.

A relação com a União Europeia e o futuro do acordo com o Mercosul também exigirão cautela.

  • Em vigor provisoriamente desde 1º de maio, o entendimento ainda depende do sinal verde do Tribunal de Justiça da UE para sua ratificação definitiva pelo Parlamento Europeu.
  • A possibilidade de vitória de Flávio, somada ao fortalecimento da direita europeia, acendeu um sinal de alerta na Comissão Europeia.
  • O órgão já enfrenta pressões de Estados-membros nos quais a oposição ao acordo Mercosul-UE é vista como uma oportunidade de conquistar eleitores cada vez mais numerosos à direita.
  • Segundo diplomatas europeus ouvidos pelo JOTA, um vitória do senador poderia reforçar a narrativa contrária ao tratado e até colocar em risco seu futuro, a depender dos rumos da política ambiental brasileira e da relação com os Estados Unidos.

🔮 O que observar: No entorno do senador, a informação é que ele busca um nome técnico para comandar o Itamaraty, com profundo conhecimento de comércio internacional e capacidade de assegurar o pragmatismo que vem prometendo nas relações exteriores.

  • Nesse contexto, ganha força entre representantes do agro e da Fiesp o nome de Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da OMC.
  • Outros diplomatas de carreira, no entanto, não estão descartados.
  • Flávio tem sinalizado que não pretende entregar o Ministério das Relações Exteriores ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro, condenado pelo STF a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo.
  • Ainda assim, não está claro se com um eventual indulto o irmão poderia ocupar um cargo público.

5. Busca-se solução

Ministros do TSE na sessão plenária desta quinta (15/10) / Crédito: Antonio Augusto/TSE

A negociação entre as campanhas presidenciais para tentar reduzir as ações judiciais no TSE está com dificuldade em avançar, Flávia Maia e Lucas Mendes escrevem no JOTA.

🔭 Panorama: Está na mesa de negociação a suspensão de ações relacionadas à pré-campanha com objetivo de desafogar o tribunal até o fim do segundo turno.

  • Há expectativa no jurídico de Flávio em avançar nas tratativas.
  • Os representantes de Lula, no entanto, estão com dificuldades de aderir a esse armistício em bloco.
  • Membros da campanha do PT insistem que o acordo só poderá seguir adiante se o canal Exército de Lula, do deputado André Janones, não precisar ficar vinculado à campanha, conforme decidiu o presidente do TSE, ministro Nunes Marques.
  • Um dos tópicos que estava na mesa era a liberação mais imediata do canal de Janones — no fim, o prazo de 48 horas de suspensão caiu pela metade do tempo.
  • Mesmo assim, o PT não se vê em pé de igualdade dos canais que apoiam Flávio, como o de Pablo Marçal.

⏩ Pela frente: Um eventual acordo entre as campanhas demandaria um levantamento de quais das cerca de 800 ações poderiam ser sobrestadas até o segundo turno.

  • Até a noite de ontem (15) ainda havia a expectativa de que as campanhas anunciassem o acordo.

OPINIÃO

6. Algoritmo e voto — e mais

  • Gustavo Maia e Washington Bonfim analisam como o poder de organizar o debate eleitoral passou da imprensa para os algoritmos. O processo afeta a percepção de políticas públicas, em que conteúdos bizarros ganham ampla distribuição impulsionados pelo engajamento. Para os autores, a soberania passa também pela “capacidade democrática de conhecer e fiscalizar os mecanismos que organizam a informação”. Leia a íntegra.
  • Há lacunas sobre as justificativas para encerrar de modo abrupto o mercado de bets que precisam ser respondidas, argumentam André Rosilho e Gabriel Carvalho. A medida provisória combina bloqueios de plataformas, restrições às transações financeiras e coordenação entre autoridades. “Parece fundamental explicar como essa atuação permitirá identificar os responsáveis pela oferta ilegal, interromper seus meios de recebimento e reagir à substituição dos endereços bloqueados”, defendem. Leia a íntegra.
  • Osny da Silva Filho rememora os programas babilônicos de perdão de dívidas. A destruição das tabuletas de argila que registravam os débitos libertava pessoas escravizadas. A proposta de perdão das dívidas dos MEIs, anunciada pelo governo, reduz pressões imediatas, embora seja uma resposta limitada e parcial. “Uma medida não precisa resolver todas as causas de um problema para ser justificada”, opina. Leia a íntegra.



Fonte: Jota

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